Aaron e o Barco de PrataPhilipe Kling David Com mais aquele, eram doze dias que eles estavam sem comer. A fome constante que gerava a quele vazio interior já havia se tornado insuportável há dois. Eles eram caçadores. Caçadores e irmãos. Pertenciam a mesma tribo de Dai Cobba no sul da Nigéria. A noite ameaçava despencar sobre a pequenina aldeia quando os homens guerreiros partiram. Passar fome fazia parte dos dez rituais que eles tinham que cumprir nas vésperas das caçadas. Da última vez, abateram uma criatura desconhecida. O velho, que sabia mais e guardava em sua cabeça branca todos os casos musteriosos de tempos perdidos, disse ser um Gmuu. Os Gmuus eram criaturas enormes e peludas. Dizia-se que foram trazidas pelos deuses ainda antes da grande chuva que refez o mundo. Seja como for, o tal Gmuu era gostoso e Agro e Rooks pretendiam achar mais um dele na escuridão da floresta. Agro, era o mais velho. Iria se casar com Baetha em sete luas e baetha estava sendo preparada pelas grandes mães haviam doze luas. Muitas vezes, eu que era o caçula me via a pensar sobre quais grandes segredos havia na preparação de uma moça para o casamento que justificasse tanto tempo de preparação com as grandes mães. Hoje Baetha estava isolada como manda a tradição. Ela só sairia na luz do dia depois de casada. Foi assim no passado. É hoje e sempre será. Era minha primeira incursão com os guerreiros na mata. Claro que eu ainda era um menino mas me sentia homem segurando a pesada lança de madeira que machucava a minha mão. Partimos na ocasião da lua certa, para os bichos não nos verem. No nosso grupo haviam dois Ibis. Ibis eram guerreiros da casta superior. Assim eles tinham o direito divino de comer primeiro. também escolhiam as mulheres da casta superior para casar. Eu não tive tanta sorte. Mas, fazer o que? Estávamos pintados para a caçada. Tudo como mandava a tradição. Embora a lama que usamos fosse um tanto pegajosa, eu sentia o gosto amargo dela nos cantos da boca. É porque estava um calor insuportável e eu suava muito. Pensando um pouco, eu me recordei do fato de que talvez o gosto amargo que eu sentia se devesse ao medo que me consumia por dentro, e não pelo barro que me recobria. Já havíamos andado por duas luas e quando o Deus luz subia ao céu, nós montávamos o Cabass que era o nosso acampamento de caça. Na verdade, acampamento seria demais para aquele monte de folhas emaranhadas e amarradas com cipós e raízes que nos servia de sombra durante o dia. Caía a tarde da terceira lua e ainda só havíamos encontrado pequenas aves, uma corça que escapou de nossas lanças e dois curis ( uma espécie de rato muito apreciada pelas crianças da tribo) Como mandava a tradição nós não poderíamos comer enquanto caçássemos, já que a fome nos aguçava os sentidos e nos preparava para luta imediata. Os guerreiros pouco se falavam. Eles apenas se entreolham e o olhar passa a mensagem. Nosso ritual de ir em busca da comida permanecia. Como ali eu era o bataquion, algo que significava ao mesmo tempo aprediz, pirralho, cobaia e mascote, não necessáriamente nesta ordem, eu ia uns setenta metros à frente para saber se não havia ali um leão ou outro animal ameaçador de tocaia. Se eu gritasse ( ele estaria em cima de mim me mordendo) os guerreiros saberiam que os animais estavam ali e fugiriam. Evidentemente esta não era a posição mais favorável do mundo, principalmente pelo fato de que também faltavam dois petras ou estações para que um novo bataquion entrasse no grupo e então eu subiria para o nível de guerreiro. Claro que eu precisava estar vivo pra isso. A noite caiu e nós nos embrenhamos mais adentro na mata. O capim já me batia na cintura e o período da caça se esvaía lentamene enquanto nós nos frustávamos de não Ter achado nada grande ainda. Com o fim do período da caça, entra a fase da lua negra, ou céu sem lua. Então são os animais que nos caçam... Naquele resto de noite, eu precisava me abaixar de dois em dois passos para poder ver contra a leve claridade do firmamento se havia algum predador a minha frente. Os meus ouvidos podiam captar o menor dos ruídos e eu sabia diferenciar o som de um grilo do bater de asas de um mosquito a dez metros de mim. O ruído do carará avisou que era pra eu parar. Carará é um pássaro que não canta na noite. Assim só podia ser um comando do líder do grupo, Agro, para que eu parásse. Podia ser por qualquer motivo. Do pior ao melhor. Fiquei imóvel. Uma estátua na escuridão da noite. Agro se aproximou com os outros. Eles falaram sobre o Gruba-kan. Eu achei graça mas eles pareciam estar preocupados. Falaram que viram o traço no céu quando o Gruba-kan passou. E eu nã acreditei. Eu era meio burro. Agro quis ir em outra direção, no sentido das montanhas de Amac e eu não aceitei. Eu menti e falei que antes de ouvir o carará, havia visto contra o céu um grande Gmuu pastando à frente e que ele devia Ter ido na mesma direção que foi o Gruba-kan. Temerosos os homens guerreiros esperaram pela palavra final de Agro. Preocupado ele permitiu que fossemos naquela direção, mas avisou para aumentarmos o cuidado. Andamos por um bom tempo. Minhas pernas começavam a arder quando perto de uma grande pedra eu avistei uma luz. Inicialmente achei que era o Deus luz mas percebi pela posição dos pontos brancos do céu, que era ainda cedo para ser o Deus luz. Então assobiei para o grupo se aproximar e a luz se apagou. Eles chegaram e eu menti novamente. Eu disse que o Gmuu correu para as pedras. Para o lugar que eu havia visto a luz e que agora dormia na escuridão. Partimos em corrida para circundar a pedra. Eu, com era o bataquion do grupo fui enviado por Agro para subir pela rocha e identificar a posição do Gmuu. E se a posição me fosse favorável eu poderia acertá-lo do alto. Fui meio triste. Eu realmente desejava que ali houvesse de fato um Gmuu. Todos acreditaram, seja pela fome ou por estarem loucos de vontade de voltar para a aldeia. Subi nas pedras e me assustei com o que eu vi. Era o Gruba-kan. Ele era real. O velho mais uma vez mostrava ser merecedor da casta de sábio. Como ele falara. O gruba-kan existia mesmo. Estava apagado, mas na fraca luz que havia eu podia ver seu brilho metálico. O Gruba-kan era o barco de deus. Uma bola grande de prata em que ele vinha de cem em cem anos buscar uma Agariop para dar a luz a um Nexiovah. O último grande Nexiovah havia sido o bisavô do velho sábio e quem segundo ele contou sobre o Gruba-kan. O barco de prata desceu do céu e a luz que eu havia vsito era então o que restou de seu brilho mágico. Então eu quis guardar um pouco daquele momento inesquecível para mim e assobiei para os guerreiros guardarem suas posições imóveis. Eles assobiaram em resposta para que eu soubesse que estavam parados. Nosso contato era formado por mais de seis mil assobios diferentes que serviam para comunicação à distância e se perdiam no meio dos outros ruídos da selva para os predadores ou presas. Fiqei uns minutos a olhar o barco de prata e então eu vi que três pequeninas bolinhas no lado do grande barco acenderam uma luz amarela. Era fraca mas dava pra ver com detalhes. Então houve um barulho fino e uma linha de luz percorreu a lateral do barco. Eu me abaixei preparado para o que quer que acontecesse. Abriu uma espécie de porta no que parecia o lado do Gruba-Kan. E uma luz bem branca saiu de dentro. Eu vi quando na luz apareceu uma mulher. Ela saiu com cuidado de dentro do barco de deus. Deve ser a mulher de deus, eu pensei. Mas ela parecia com uma mulher comum, inclusive uma de casta inferior, já que não usava o Faba e nem o Akaj, um pequeno colar e pulseira que as mulheres de castas maiores usavam. Ela saiu nua para a escuridão. Eu não movi um músculo sequer. Estava a espreita do que fosse acontecer. Foi quando sairam do barco dois homens estranhos. Eles não pareciam homens. Eram bebês gigantes que sairam andando em volta dela. Um deles apontou em minha direção.Eu me assustei. Ela se virou. Meus olhos encontrama os dela por uma fração de segundo. Tentei me jogar do alto da pedra para a mata atrás de mim, mas algo aconteceu e eu cai no chão sem me mover. Foi quando vi que os homens bebês gigantes subiam nas pedras para me agarrar. A mulher permanecia próxima ao Gruba-Kan. Então eu gritei como pude. Mas os guerreiros não apareceram e os homens bebês gigantes eram muito fortes apesar de magros e me arrastaram pelas pernas e braços para o barco de Deus. Então eu entendi tudo. Eu havia mentido para os guerreiros. Estava pagando pelo meu erro. Os homens bebês gigantes me levantaram de frente para a mulher que devia ser uns sete ou oito anos mais velha que eu. Ela era bonita e tinha os olhos pretos. Ela falou no velho idioma Miri que o velho me ensinou um pouco há muito tempo atrás. Só entendi duas das palavras que ela falou. Abbaf e Mertob. Ceu e terra, respectivamente. Então a mulher me pegou pela mão e me levou para dentro do Gruba-kan. Uma luz muito branca fez arder meus olhos. Naquela noite os guerreiros voltaram para a aldeia levando o Gmuu. O pequeno bataquion do grupo havia desaparecido. Agron disse ao velho que eles acreditavam que um leão ou baddot havia matado o pobre garoto. Mas era noite de festa. Havia muita comida e em breve um casamento. Ninguém deu pela falta do pequeno bataquion que havia sido levado para as estrelas no barco dos deuses.
|