Modelando um Clone Trooper

Um amigo meu chamado Eduardo Cinta um dia mandou um email dizendo que tinha desenvolvido a tecnologia necessária para fabricar uma massa de modelagem conhecida no mercado internacional como OIL CLAY.

De fato, era uma boa notícia, já que esta massa não existia por aqui e todos os artistas que trabalhavam com modelos de grandes proporções e efeitos especiais acabavam tendo que optar pelo "similar"nacional a ARGILA.

Quem já modelou com a ARGILA sabe que argila é nada mais nada menos que LAMA em estado mais grosso. Isso significa basicamente que ela seca, e por isso acaba ficando quebradiça, mas isso ainda é pouco quando comparamos as duas. Enquanto a OIL CLAY não seca nunca, a argila seca, impedindo o trabalho sucessivo por um temnpo demasiado longo, e obrigando o artista a cobrir o modelo com pano úmido e condicionando-o a molhar o paninho a cada punhado de horas. A ARGILA enquanto matéria prima de origem natural, é extraída in natura da natureza, o que traz consigo problemas como a presença de pedras, areias, raízes e material orgânico, que na melhor das hipóteses pode dar um cheiro ruim de rio no seu estúdio e na pior pode conter elementos minerais em sua composição que geram problemas sérios se a peça for ao forno. A dificuldade em combinar argilas de diferentes fabricantes em termos de cor e características, como teor de umidade, dureza e "memória" da massa fazem da ARGILA um material difícil quando se deseja excessivo nível de detalhes, trabaho em etapas sucessivas, graus precisos de dureza na massa para elementos específicos, sem falar na limpeza geral no estúdio.

Mas o fato é que meu amigo Eduardo me mandou amostras pequenas da OIL CLAY nacional que ele inventou e me pediu para testar.

A primeira e uma das melhores características que notei ao trabalhar com a DIM CLAY ( que é o nome da massa dele) foi que ela não tem cheiro de rio. Isso é muito bom, sobretudo porque eu trabalho com a peça quase dentro da boca de tão perto da cara. (uma necessidade na hora de se fazer os detalhes menores).

A outra característica que me agradou muito foi que a DIM CLAY pode ser adquirida em diferentes graus de dureza. Isso permite um ilimitado controle sobre o processo de modelagem, começando pela estrutura da peça que deve ser firme e segurar bem os layers sucessivos de massa que o artista vai sobrepondo para buscar diferentes graus de detalhamento na peça.

Com a DIM CLAY, eu consegui um excelente nível de mistura de massas sem nenhuma dificuldade, fato que me surpreendeu muito positivamente com ela, porquê a capacidade de mistura da massa realmente é de dar inveja a qualquer plastilina do mercado. Nem mesmo a famosa ROMA plastilina consegue tal grau de miscividade que a DIM CLAY obteve. Eu consegui por exemplo, misturar a extra firm com a soft para obter resultados específicos.

Bom, o final de semana amanheceu nublado, chuvoso e feio e com um tempo assim, nada mais gostoso que tirar o dia para uma modelagem. Então resolvi modelar um Clone Trooper com a Dim Clay para testar a massa e saber suas características.

Tudo começa com a tradicional arrumação do "estúdio" para o início do trabalho. ( eu estou pensando em arrumar um estúdio separado da minha casa para trabalhos maiores), mas enquanto isso não acontece, arrumei a minha velha mesa de trabalho e tirei algumas fotos dos materiais que usei nesse projeto:




Aqui está uma foto mostrando as barrinhas de DIM CLAY. Como as que eu recebi eram amostras grátis, não sei como é a embalagem original, nem o tamanho padrão de venda do produto. As quantidades de venda são: 500g, 1kg, 2kg e 3kg. Mais dados vc pode obter no site da DIM CLAY: www.dimclay.com

A DIM CLAY pode ser comprada em diferentes graus de dureza como eu já disse. Começa com HARD ( a pedidos) e depois vem a EXTRA FIRM, ( que é beeem dura) depois tem a FIRM, a MEDIUM e a SOFT ( quem sabe daqui a um tempo uma extra soft...) E pode ser comprada em duas cores inicialmente: Grafite e Cinza Claro.

O primeiro passo antes de começar a esculpir é colher uma boa quantidade de informações e referências sobre o que você vai fazer. Eu sou chato e insisto nisso, mas o cérebro nos prega muitas peças com respeito à memória. Nós guardamos informações de modo estranho e distorções perceptivas são muito comuns. Ter em mãos e ao lado de onde se trabalha essas referências é fundamental para um trabalho de qualidade.

Ok, nem sempre o que vamos construir existe, já foi feito e etc. Nesses casos (acontece muito com design conceitual) o ideal é ter referências básicas e exemplos para ter como ponto de partida. Se o modelo vai usar uma capa, recorte de revistas que mostram o tecido, diferentes caimentos de acordo com o tipo de tecido, se seu boneco usará uma arma, ter fotos de armas ajuda muito no correto desenvolvimento das peças. O importante é que a referência não limite sua criatividade a ser um mero copista, mas que dê base para vôos maiores. Por exemplo, na hora de se criar um modelo de criatura alienígena é natural se usar de referências e
fotos de criaturas terrestres, dinossauros, lagartos, bois, cavalos, elefantes. Cada particular detalhe de dobras de pele, pêlos, escamas e renhuras com veias saltadas podem enriquecer dramaticamente seu modelo.

No meu caso, eu achei com facilidade montes de fotos de clone troopers:




O processo básico começa sempre assim. Depois das referências, eu pego uma base de madeira que servirá para apoiar e segurar o modelo enquanto eu esculpo. Nessa base, eu faço dois furos por onde passo o fio de arame.


Depois de passar o fio de arame, começo a trançá-lo com as mãos ( embora seja possível usar a furadeira para fazer um forte e longo cabo trançado de arame) e dou uma forma geral ao que imagino ser o boneco.

Eu sei, é estranho. Fica difícil imaginar que esse arame torcido vai virar um clone troopper, mas nesse caso eu sabia que não iria modelar o boneco de corpo todo, mas também não queria modelar só o busto. Então concebi esta estrutura que é o boneco segurando um rifle enorme, meio encurvado e olhando para o lado, como se fosse um guarda, sentinela ou algo assim. Depois de moldar o arame com as mãos e com os alicates, eu corto com cuidado as pequenas pontas de arame que podem causar acidentes idiotas. Em seguida, começo a aplicar a DIM CLAY no esqueleto, tentando obter uma forma básica, de enchimento. Para isso, usei a dim clay FIRM, o que permitiu obter a forma básica e moldá-la por subtração (cortando os excessos).

 

Como você pode ver, a idéia é só dar a forma básica. É apenas o primeiro approach e em geral eu também acho muito feio o boneco nessa parte. (É justamente nesse momento que temos que ter paciência e o otimismo de achar que ela vai melhorar).

Então em seguimento ao processo, nós começamos a cortar e retirar com um cutelo de modeslimo bem afiado os excessos. Claro que cometeremos erros e tiraremos a mais num lugar e em outro. Aí é que a eficiência da DIM CLAY se mostra. Você pode colar novamente com a maior facilidade partes extirpadas do modelo com ela apenas pressionando a massa de volta e elas se fundem novamente. Aí você corta certo.

Aproximadamente nove horas de trabalho direto em cima do modelo, o resultado é este:



A Dim Clay como não é uma massa feita para secagem, como a Super Sculpey, resinas Epoxi e etc, Logo não seca, o que nos obrigará a usarmos uma fôrma de silicone do modelo se quisermos mais tarde pintá-lo. É possível usar fluido de isqueiro como solvente leve para dar uma abrasão química na peça e deixá-lo com a superfície mais suave e sem digitais. Eu não usei fluido neste modelo porque a finalidade dele era só testar a massa. Mas você poderá usar no seu, aplicando fluido de leve com um algodão, tomando MUITO cuidado com os detalhes da peça.

Aqui está a foto do modelo 90% finalizado.