O caçador de dinossauros

Philipe Kling David

Já estou de saco cheio de esperar. Um mosquito desgraçado teima em me aporrinhar os ouvidos tentando me morder...

Nós resolvemos usar uma cabra velha morta doada pelo vilarejo do qual nem mesmo me lembro o nome, que fica a uns cem quilômetros rio abaixo.

Custou a escurecer hoje, depois da chuva tropical e do abafamento que se dá sempre que chove aqui. Talvez por isso algo me incomode tanto em ficar como um macaco escondido aqui nesta moita falsa com o rifle pesando nas mãos esperando nosso convidado aparecer...

Tentamos a mesma coisa já a três malditos dias e nada. Parece que ele sabe de nós, de nossas intenções, de minhas esperanças...

Pelo menos os inseto irritantes se foram e os animais idiotas do mato sossegaram finalmente, deixando um silêncio para que eu pudesse pensar um pouco; se é que é possível com este cheiro de podre que sai do defunto de cabra dependurado no alto da árvore a minha frente.

Realmente, eu sei que parece idiota ficar pensando isso agora, mas quando eu falei com o pessoal do grupo ninguém acreditou em mim. Diziam que eu estava sendo alvo de uma piadinha de mal gosto feita por um pajé qualquer. Mas quem se importa realmente com isso?

Ora...A quem estou tentando enganar? Eu me importo!

Se o bicho maldito não aparecer logo, eu vou acabar desistindo de ficar aqui no mato, com os insetos, esperando e esperando... -Um ruído ecoou no súbito silêncio da floresta Amazônica.

-Ops! Será que é ele? Será que é o bicho? Existe mesmo? - Era um som gutural, abafado e pesado de algo grande movimentando-se por dentro do mato. Galhos quebrando, poças da chuva explodindo à todos os lados. Animais em disparada rompiam o silêncio. Eram os que haviam ficado para trás na fuga em massa minutos atrás.

O som continuava, aumentando sua trajetória indicando a proximidade do gigante.

-Lá vem ele. Só pode ser...O pajé estava certo mesmo. Ele não era maluco como eu já começava apensar. Meu Deus! Não estou conseguindo me controlar...Não existem elefantes na floresta do Brasil. Eles sobreviveram mesmo. Está vindo! Está vindo! Pegar a arma, Baixar a isca, preparar mira telescópica, apontar...

- A imensa cabeça escura surgiu por entre os galhos grossos do alto da mata. Parou. Parecia saber da presença dele ali, grudado na árvore. Petrificado de medo o suficiente para não esboçar nenhum movimento.

O dinossauro soltou um grunhido estranho, meio oco. Parecia um trompete em baixa rotação. Os diminutos olhos moviam-se com dificuldade tentando enxergar algo.

-Aimeudeus! Ele me viu..- Pensou.

O animal lentamente iniciou um avanço em direção a ele. Os olhos fixos nele.

- Fugir!!!! Tenho que fugir!- Mas não conseguia. Estava todo urinado... Seria o primeiro homem da história a morrer comido por um dinossauro. Foi quando, de trás dele, pulou um outro daqueles, que ele nem mesmo sabia o nome certo. Era da mesma espécie.

- Puts! Tô no meio da briga! Existe mais e um...dinoss...- Não deu tempo para continuar o pensamento. A briga tinha se iniciado. Os dois gigantes animais se degladiavam com mordidas numa gritaria selvagem. As caudas imensas batiam em árvores derrubando folhas para todos os lados. O som era altíssimo. Gritos e urros podiam ser ouvidos a quilômetros, o que não adiantava nada, uma vez que ele estava no meio da floresta amazônica, indicado por um índio pajé garimpeiro que conhecera na zona do baixo meretrício, entre um peitinho e uma garrafa de pinga...

Claro, que, a princípio, ele como qualquer pessoa normal havia achado que tudo não passava de mentira daquela figura desdentada e enrugada. Mas quando ele me olhou nos olhos com o único olho que funcionava, porque além de velho, desdentado e enrugado, o índio ainda era caolho, com olho de vidro de cor diferente do que ele tinha, fruto de uma troca generosa de meio quilo de ouro com contrabandistas de cocaína que tinham um barracão na sua aldeia. E passavam cocaína por dentro da mata, nas trilhas que o povo dele tinha até Manaus. Mas o negócio é que quando os olhos se encontraram, ele pôde perceber que o índio falava a verdade. Realmente haviam dinossauros no Brasil.

O primeiro deles parecia estar ganhando a posse sobre o defunto da cabrita pendurada na árvore. Os dentões haviam manchado de sangue tudo à volta. Os bichos brigavam no chão espalhando uma poeirada danada no ar.

Subitamente, um deles parou. Estava morto. O outro, mais escuro, provavelmente um macho, logo, mais forte, levantava-se nas duas patas traseiras com certa dificuldade. Estava todo arranhado e mordido, com feridas profundas por todos os lados do corpo.

Era a chance que ele estava esperando. Preparou o rifle de matar elefante, mirou no meio da cabeça do bicho e mandou ver no gatilho.

O eco do tiro em explosão ecoou na floresta. O animal retesou todo o corpo e ficou parado. Aquela imensa estátua negra no interior da floresta Amazônica permitia verificar no seu interior toda a agitação, refletida no corpo parado.

O caçador havia errado o tiro. O animal virou a cabeça na direção dele e abriu a boca de dois metros. Iniciando com ela um movimento de todo o gigantesco corpo em uma marcha assassina para cima do caçador, que desesperado tropeçava em galhos e catava “cavacos” na tentativa desesperada de fuga.

Toda a floresta à sua volta tremia com a corrida do dinossauro atrás dele. Parecia a caçada de uma galinha a uma barata. O animal alcançava-o a cada enorme passada.

O caçador sentiu o bafo quente do animal no seu cangote. Os dentes fecharam-se à sua volta. Perfuraram sua barriga e ele não mais sentiu as pernas. Tudo escureceu.

O dinossauro sacudia o que restava do corpo do caçador par os lados até que se arrebentou no meio e enfim pôde engolir. Girou com habilidade seu corpanzil pelo meio das àrvores e voltou-se para a floresta passo a passo. Ia sumindo no meio da mata, tragado aos poucos pela imensidão verde. O som dos pesados passos do dinossauro sumia lentamente enquanto um ou outro passarinho se atrevia a cantar. As cigarras do anoitecer reiniciaram seu canto e a floresta voltou a sua paz atribulada.

Os dinossauros não mais foram vistos e assim, estão até hoje no interior da floresta amazônica do mesmo jeito que o índio.

E por falar no índio, ele está bem, com seus olhos vesgos e pele enrugada, ainda entre um peitinho e uma garrafa de pinga.