O paradigma do alto custo nos efeitos especiaisPhilipe Kling David Os efeitos especiais tinham outra finalidade quando o cinema começou. Podemos ver que grande parte das tomadas de efeitos da antiguidade do cinema, tinha objetivos claros de não apenas possibilitar a criação de cenas difíceis ou impossíveis de se fazer, mas também e principalmente, a redução nos custos envolvidos em determinadas cenas e manter a linha da continuidade da história. Compreender a natureza dos efeitos especiais que tiveram seu mais claro e reconhecido uso na indústria do cinema norte-americano é também compreender em parte a dinâmica histórica do cinema dos Estados Unidos, os filmes B e suas peculiaridades e contribuições para uma indústria que movimenta cifras obscenas em todo o globo hoje. Quando nós sentamo-nos nas confortáveis poltronas dos cinemas para assistirmos com espanto coisas que nunca vimos ou sequer sonhamos, manifestamos ainda os mesmos sintomas das platéias que assistiram atônitas a clássicos como “Viagem à Lua” ou a primeira versão de “200.000 Léguas Submarinas” no tempo em que a câmera funcionava à manivela. Mas as semelhanças terminam aí. Apesar dos efeitos sobre os espectadores serem os mesmos, o paradigma que norteia a existência deles é outra bem diferente. Hoje, grandes filmes com grandes orçamentos disputam gigantescos públicos na ciranda da globalização, (que visívelmente vem sendo generosa com as indústrias norte-americanas em detrimento das outras menores), sem falar nas incipientes, como a indústria de efeitos do Brasil. Aliás, é insanidade falar em indústria de efeitos no Brasil. Nem sequer o país tem uma indústria cinematográfica! Só dois países possuem reais indústrias de cinema. A Índia e os Estados Unidos. O cinema Brasileiro é artesanato. Os efeitos são algo como um projeto, uma possibilidade de artesanato. O que parece ter ocorrido com a evolução do cinema americano é que devido ao surgimento da indústria profissional do FX em meados do final da década de 60, este mercado predominou de uma tal maneira que filmes passaram a ser criados para manter a indústria e público, ocupados uns com os outros. No mesmo período, paralelamente, se iniciou uma linha de filmes voltados para o entretenimento puro, com cenas rápidas, decupagem obveísta e histórias fantasiosas que recorriam a uma alta dose de Fx para se viabilizar. A criação desse arcabouço cultural gerou a demanda por um tipo específico de entretenimento que retroalimentava – e ainda retroalimenta - a indústria dos efeitos especiais em filmes hoje conhecidos como produções “arrasa quarteirão”. Devido a isso, o que ocorreu foi uma associação direta entre os efeitos, seu resultado espetacular e seu alto custo. Hoje, diferente da sua finalidade inicial, que era de baixar custos e realizar cenas impossíveis para viabilizar uma história, os efeitos significam custos altíssimos e lucros proporcionais. A associação do resultado dos FX com seu custo altíssimo - devido aos equipamentos de última geração, o investimento em desenvolvimento de novas tecnologias e seu custo de pessoal qualificado, tornou-se uma marca indelével na mente de todos os realizadores. O passo seguinte foi quando o conceito milionário dos efeitos ganhou as ruas e foi parar na mente do público. Hoje, vende-se um filme com as cifras assombrosas dos custos dos efeitos especiais, e isso atrai o público. Mas seria isso verdade ou apenas um mero fenômeno da mitologia social contemporânea? Eu tenho sérias dúvidas de que seja verdade a relação do dinheiro-efeitos. Quando a era moderna dos efeitos começou de modo bem frágil nos galpões da ILM, o computador ainda era uma ficção científica distante e inalcançável. Assim os efeitos eram basicamente o resultado direto da qualidade técnica dos artistas que suavam a camisa para gerar coisas que até então nunca haviam sido vistas. Artistas... Artistas e suas capacidades. Não era o software ou hardware mais possante, mas cérebros geniais que permitiram uma revolução no cinema do impossível que culminou com o oscar de efeitos especiais. Com o avanço da revolução da informática, o que vinha sendo feito com muitas pessoas e muito material, passou a ser feito de modo mais enxuto com o computador. Ao contrário do que se esperaria num mundo lógico e perfeito, apesar da informatização ter reduzido custos, os valores relacionados aos FX nos filmes galopam para o alto, em direção às estrelas, em cifras astronômicas, que são alardeadas nas campanhas de marketing dos filmes como prova de sua qualidade. Ao mesmo tempo em que os computadores invadiram todos os mercados, trazendo com eles grandes soluções técnicas, velocidade e qualidade sem comparação, o mercado popular não industrial absorveu essas inovações de uma maneira significativa. Graças a isso e diretamente à indústria do entretenimento digital (games), empregou uma forte energia no sentido de tornar cada vez mais potentes as máquinas populares. Em linhas gerais, hoje o usuário caseiro tem à sua disposição equipamentos muito superiores aos usados há dez anos atrás na indústria dos efeitos especiais. Este é o paradigma do alto custo em efeitos especiais. Quando máquinas equivalentes as que temos em casa eram usadas na indústria dos efeitos, era possível fazer efeitos com elas. E digo mais, a mídia alardeava aos quatro ventos que estes efeitos eram superiores e preferenciais aos tradicionais efeitos físicos. Mas hoje o usuário doméstico olha impotente para seu micro e pensa que não conseguirá nunca fazer algo com ele que seja de qualidade profissional, pois não tem aquelas estações poderosas – e caríssimas- que se vê nas produtoras americanas. Daqui a uns anos, o potencial dessas máquinas chegará ao poder do usuário doméstico e o pensamento e sensação de impotência opressiva permanecerá. Mas existe uma resistência de poucos que começa a surgir no Brasil. O advento da internet e do vídeo digital popularizou de tal maneira o cinema independente que não é raro encontrar quem consiga fazer coisas interessantes e curiosas com pouca grana e muito tempo sobrando. Pepa é um cara como outros que eu conheço. Mas por mais similar aos outros que ele seja, Pepa é um cara incomum. Montou com amigos do seu prédio no Grajaú uma psico-produtora que funciona descentralizadamente entre os andares do prédio, espalhada nas máquinas (micros caseiros) dos seus amigos. Pepa escreve filmes trash com títulos incomuns e atraentes como “Grajaú Ninja III”. Seu site recebe visitas aos borbotões de gente de todo lugar do mundo que está disposta a não só entender mas aprender como apenas um cara mais meia dúzia de amigos reproduzem com um satisfatório grau de realismo efeitos que se vê em Hollywood, com custo mais baixo. Aliás, praticamente sem custo. Entre efeitos que fazem sucesso no pequeno fórum que o Pepa mantém estão podreiras e coisas impressionantes, como efeitos de bullet time que se vê em Matrix, efeitos curiosos como os de Homem Aranha, poderosos golpes como o “kame-hame-rá” em uma luta propositalmente mal feita entre amigos do prédio, cabos de vassoura que viram sabres de luz e muitos outros. Vale ressaltar que obviamente não estou comparando a qualidade dos tresloucados vídeos em VHS digitalizados do Pepa com arrasa-quarteirões multimilionários como Terminator, Star Wars, Homem Aranha, Godzilla e outros. Não sou maluco a este ponto. Mas Pepa e seus predecessores são a prova da vontade sobre a limitação técnica e a financeira. Se houvesse uma maior divulgação, Pepa e outros como ele poderiam fazer a diferença ao viabilizar efeitos em produções de custo menor. Sites como o dele provocam o interesse do público e desperta de seu sono letárgico uma mão-de-obra que mais tarde poderá ser essencial para a implantação de um cinema popular de qualidade, ou ainda por cima, numa visão globalizada dos negócios, ajudar a debelar o problema sério do “farinha pouca meu pirão primeiro” que afeta as produtoras nacionais. |