A Inauguração da Árvore de Natal da Lagoa.

Philipe Kling David

Eu tava querendo ficar em casa, a Nivea enchendo o saco que queria ir. Aqui tava chovendo e ela insistindo que não ia chover e tal.

Bom, sabe como são as mulheres. Acabei indo pra agradar. Tudo bem que eu tava doido pra ver a Orquestra Sinfônica Nacional...

Tudo começou quando eu estava indo, meu carro misteriosamente começou a engasgar na esquina da minha casa e eu percebi que era um presságio do terrível destino que me aguardava. Contrariando meus instintos, acelerei e fui para o Rio. A chuva e vento que peguei na ponte atrapalhavam a direção, mas eu estava resoluto a ver a tal árvore e ouvir a tão sonhada Orquestra Sinfônica Nacional. Peguei o túnel Rebouças e acabei descendo errado, na primeira entrada a direita, indo parar na Gávea.

A chuva caía forte no Rio e eu não via absolutamente nada no meu carro desgraçado. Ele tem uma capacidade incrível de embaçar com qualquer chuvinha. Bom, me perdi. Rodei nada menos que uma hora entre ruas que pareciam todas iguais, passando da Gávea a Laranjeiras, Botafogo, novamente laranjeiras, novamente gávea e enfim... Lagoa!

Todo feliz eu estava quando descobri que a pista que eu tava me obrigava a pegar novamente o Rebouças no sentido contrário, me fazendo ir parar novamente na direção de Botafogo. Então acabei agarrando num engarrafamento que havia numa rua em descida. Eu não enxergava nada e tentava me manter calmo, quando meu carro foi atingido na

trazeira por um taxi. Com o impacto bati também no carro da frente, fato que me causou um prejuízo de uma lanterna e um amassado em forma de ovo no capô. Para me acalmar, pensei que em poucos minutos estaria confortavelmente instalado, ouvindo a Orquestra Sinfônica Nacional.

Com dor no pescoço que me lembrava os casos em que as pessoas fraturam as vértebras da coluna cervical neste tipo de acidente, e a Nivea se sentindo mal com o impacto devido a compressão do cinto de segurança, eu voltei para o carro e resolvi sair sem rumo até achar. Rodei feito uma mosca de padaria e quando vi estava no mesmo local do engavetamento, mas em sentido contrário.

Subindo a rua. Lá na frente entrei errado de novo e acabei dando uma marcha ré maluca sem ver nada na base do "seja o que Deus quiser" e deu certo. Consegui achar novamente o rumo do Túnel.

Toda hora a Nivea olhava no relógio para calcular quantos milissegundos faltava pra árvore inaugurar. Irado, querendo matar a minha mulher, eu tentava desesperadamente enxergar e dirigir.

Finalmente, eu acertei a pista e cheguei no corte do Canta Galo. Logo que vi o engarrafamento, já era tarde demais. Em segundos meu carro estava cercado de sujeitos estranhos que gritavam como corretores da bolsa querendo que eu parasse na vaga "deles".

"Vaga deles" Era o nome para um pequeno espaço apertado e perigoso, em baixo de um paredão, onde os carros passavam bem em cima, espirrando uma água suja de poça em cima de nós.

Satisfeito por ter inteligentemente conseguido sozinho achar aos trancos e barrancos o lugar para estacionar, desci do carro e ouvi: - Adianta aí, patrão. Aqui é "SÓ" dez reál.

-Hã? – Peugurntei como que não querendo acreditar no que acabara de ouvir.

- Dez real! "Paraaqui".Dez real pra ver a árvore. Tá barato!

- Ih, então não posso parar aqui, já que não tenho dinheiro. - falei querendo aplicar o clássico golpe do “pago depois” no flanelinha.

- Não, patrão. Sabe o que é... É que a gente tem um "acerto" aí com os guarda, né? Eles liberaram. A gente tá trabalhando junto na área. - Ele ia explicar como era o acerto quando a Nivea interrompeu:

- Meu amigo, nós só pegamos dez no banco... -Como sempre, só faltando falar o número da conta para o flanelinha- ...Não temos mais que oito reais aqui e temos que pagar pedágio na ponte ainda.

- Tá beleza, madame. Vou fazer então a cinco pra vocês.

- Mas tem o acerto com o guarda, né? - Perguntei incrédulo.

-CRARO! Tudo limpeza patrão! Tá acertadão lá com eles. É cinco reais. Pode pagar agora faz favor.

A Nivea me passa uma nota de cinco merréis e olhando no relógio a árvore já tava quase inaugurando... Paguei.

Foi eu pagar e abrir a sombrinha ( a discussão anterior foi na chuva) para fazermos uma caminhada leve de uns dois km até o local da árvore e show quando eu vi parar uma patrulhinha da guarda municipal bem na minha frente e um dedo na minha cara alertou:

-Ô! - O carro aí é teu?

- É sim senhor. - Novamente meu tom incrédulo de quem já tá antevendo alguma merda.

- É proibido parar aí. Tira que eu vou guinchar!

- Mas o flaneli... Cadê? Amor, cê viu o cara?

- Ih, lá vai ele correndo lá.

- Seu guarda, mas o flanelinha falou que podia parar ali.

- Poder, vc pode (sarcástico). Mas você vai ser guinchado se parar. – E vendo a situação, não perdoei:

- Mas o flanelinha falou que PAGOU propina pro senhor não me guinchar, ué! ( dando uma de bobo)

- O flanelinha falou O QUÊ???? - A expressão de ódio surgiu sobre a de piadista sarcástico de fim de semana.

- Falou que pagou propina PARA O SENHOR (saca só a minha ênfase, agora o dedo na cara já era meu).

-Zé, vamo lá. Pega eles! - Disse para o motorista da patrulhinha. E saiu voado, perseguindo os flanelinhas que fugiam ao longe com meus ricos cinco merréis. Na minha opnião, ele foi lá pra saber a parte dele da grana, mas...

Puto e com o tempo correndo contra mim, só me restava retirar meu carro da vaga e amargar o prejú. Pensando que ouviria em breve a Orquestra Sinfônica Nacional e me acalmaria, saí procurando outro lugar para parar. Mas o lugar que eu tava era perigosíssimo e quase bati umas três vezes só pra tentar sair da maldita vaga.

Enfim, com um golpe de sorte eu tirei o carro e sai em busca de um lugar para parar. Eis que passo em frente a um enorme e quase vazio estacionamento. Eu já embiquei o corsa e veio o cara:

- Só para quem é credenciado da administração do evento... Pótirar!

Então foi o mesmo suplício pra mudar de direção, voltar ao engarrafamento. O tempo passando... Passando...

A chuva continuava a cair, agora mais fina. Constante. E no meio da confusão, eu procurando uma vaga, mas nada. Nenhuma a vista. Depois de rodar quase toda a orla da Lagoa, achei uma Kombi mal parada em cima da calçada, que tinha uma árvore do lado. Num golpe de vista calculei que meu corsa caberia ali, metade no canteiro, metade na caçada e metade levitando sobre a curva. Enfiei. Coube! Mais em cima da árvore e vcs poderiam me chamar de Tarzã...

Mas só que prendeu a Kombi e em vista dos incidentes, eu resolvi largar lá mesmo e saímos voado para o local do evento, ou perderíamos a árvore e a tão sonhada Orquestra.

Depois de correr, atravessar a rua feito malucos, quase fomos atropelados, mas chegamos ao outro lado e tudo parecia bem na medida do possível.

Então uma velha com um guarda-chuva quase furou meu olho com a droga da barbatana do maldito. Escapei por um triz de ficar cego. Nem, comentei, pq já havia gastado a minha "cota de reclamação "semestral com a Nivea naquele dia.

Então fomos indo na direção do show e descobrimos que os safados botaram o palco bem numa área alagada da Lagoa. Onde a passagem era impossível. Acabamos tendo que passar pelo playground e então, só então, descobrimos da pior forma que a chuva havia tornado aquilo um atoleiro como nunca se viu. Eu patinava tentando manter o equilíbrio. O guarda-chuva na mão me dava uma certa aparência circense e cheguei a ouvir algo como "ele não vai conseguir!" vindo de umas senhoras que observavam minha aventura. De fato, a profecia quase se cumpriu e na iminência de dar uma bela "sentada" na lama, consegui me segurar numa grade verde, praticamente com a boca pois num giro de corpo apoiei o braço no local que estava reservado para os meus dentes...

Enfim, depois de cruzar o pântano da perdição eu cheguei no charco total do gramado e em seguida, na segurança firme do asfalto. Um carro do jornal O DIA quase me atropelou e eu saltei de banda, conseguindo escapar do infortúnio mais uma vez.

Fomos para o meio da multidão ainda em tempo de ouvir solenemente que...

"devido ao mau tempo, a Orquestra Sinfônica infelizmente não vai se apresentar hoje".

Pô, aí eu fiquei puto. Aí a Nivea encontrou ( como não encontraria?) com a tia dela, com uma ENORME ( era tão grande que só grafando em caixa alta mesmo) barraca de praia, servindo de guarda-chuva. O detalhe é que onde ela estava não havia lugar nem pra ver o show, nem pra ver a árvore. O show tudo bem, já que não ia ter o que eu passei o maior perrengue pra ver, mas e a árvore? A Árvore eu tinha que ver por uma questão de honra!

Então convenci elas a mudar o acampamento para um lugar com melhor visibilidade.

Elas arrumaram. Ao lado da caixa de som, entre um cara estranho com cara de tarado que estava de olho no banheiro das mulheres e um bebum igual a um Papai Noel do esgoto, que tava tão alcoolizado que apareceu no Jornal da Globo! Dizendo que a Árvore era Deus e gritando algo como "queremos Kid Abelhaaaa" – (detalhe, o show do Kid Abelha tava acontecendo naquele dia, mas em Copacabana.)

Então começou a inauguração da árvore e eu posso dizer que foi realmente bonito... A parte que eu vi, pois na minha frente tinha um coqueiro que tampava 60% da vista. Os fogos eu não sei como foi porque a multidão na minha frente com guarda-chuvas e em cima a marquise enooooorme do guarda-sol da tia da Nívea, não permitia ver nada.

Bom, enfim a árvore inaugurou, não teve orquestra, o bêbado ficou enchendo o saco, a chuva não parou. E resolvemos ir embora. A Tia da Nivea pediu carona e ainda tive que ser extorquido por outro flanelinha quando me preparava pra sair com o carro. ( não sei até agora como o cara da Kombi tirou ela dali)

Nesse eu me vinguei do golpe do anterior e falei na maior cara de pau que paguei na chegada pra um amigo dele.

E categórico completei: - Com a camisa do flamengo!

Aparentemente funcionou, pois ele falou algo como "Chiquinho filhadaputa!" e saiu, me deixando com a bananosa de tirar novamente meu carro do lugar que ele tava. Depois de umas tentativas eu consegui e com a ajuda da Tia da Nivea consegui chegar no Rebouças. Desci no Rio comprido, onde acho que levei uma multa por excesso de velocidade ( passei a 60 num pardal que só depois fui saber que era de 40) e enfim, voltei pra casa.

Cheguei em casa, fui fazer o jantar: Pizza!

Todo animado, botei no forno e quando fui comer, descobri que o queijo tava velho e a pizza tava dura, a massa ressecara por estar dois dias na geladeira. Ao menos a Coca-Cola tava quente, do jeito que eu gosto.

Só me restou ir dormir.

Não vejo a hora de ver a árvore do Ano que vem.