Portfólio – Missão impossível

Philipe Kling David

Outro dia, eu estava no ônibus e quando ele parou em um ponto, vi subir na lotação cheia um sujeito meio desengonçado.

O curioso acerca daquela figura era que o cara trajava uma completa descombinação de roupa, e portava uma pasta enorme. Aliás, a pasta era tão grande que deveria ser grafada assim, em caixa alta: ENORME.

Não precisava ser muito burro para na mesma hora bater o olho e sacar que o cara carregava com carinho e cuidado o portifólio dele.

Pode-se imaginar o suplício do cara em subir no ônibus. Passar na roleta foi o segundo pesadelo. Quase arranjou briga com um bigodudo calvo quando a pasta acertou a cabeça do careca enquanto o cara tentava pagar o trocador, se segurar e tentar não amassar a pasta gigante ao mesmo tempo.

A partir daquela cena, enquanto cruzávamos o longo percurso entre a ponte Rio-Niterói, e o cara ao meu lado dormia babando na janela, eu fiquei acordado, pensando sobre o portifólio. Esta coisa mágica e importante que muitas vezes se faz maior que uma pasta de demonstração de nossas capacidades, mas torna-se uma parte de nós mesmos, ao ponto de subirmos em ônibus lotado com ela, desafiarmos a gravidade, carecas bigodudos ameaçadores e o calor - os perigos de uma cidade moderna - para apresentá-la incólume, ao cliente.

É possível que o leitor, sobretudo o novato se sinta meio estranho ao tentar entender exatamente o que é esse tal portifólio.

Bom, no mundo de hoje, quem não herda tem que correr atrás, certo? Pois imagine só como seria a vida de um profissional de seleção quando tem que contratar um fotógrafo para uma revista se não existisse o portifólio. Provavelmente ele viveria o seu mais terrível pesadelo que é a contratação no escuro.

O portifólio para o profissional de artes, design, fotografia, ilustração e tudo mais que envolva imagem é a sacrossanta ferramenta de apresentação das potencialidades do candidato. Sem ele não dá pra reconhecer um profissional já calejado, com conhecimento do que faz de um iniciante, aventureiro ou como já dizia um amigão meu, o temível “Zezinho da esquina”.

Mas exatamente o quê é isso? É uma pasta onde você apresenta, da melhor maneira que puder os seus melhores trabalhos. Simples né?

Simples nada! Parece simples, mas é muito difícil. A começar pela seleção do material que será apresentado. A maneira como será mostrado, a escolha da melhor pasta, a ordem de apresentação dos trabalhos.

Muitos fatores infuenciam a construção de um bom portifólio.

Bom, olhando de um modo estritamente técnico, se você ainda não tem um portifólio, só posso dar um único conselho: Corra e arranje um!

Para a busca de seu lugar ao sol ou mesmo para a consolidação de sua posição, acho bom você começar a pensar seriamente em fazer o seu, ou aperfeiçoar aquele antigo, cheio de trabalhos velhos que você guarda no fundo do armário. Currículo ajuda bastante ao jovem designer, mas nada, absolutamente nada é tão valioso quanto um portifólio bem feito.

O que eu posso dizer é que você deve ter em mente algumas coisas antes de iniciar o trabalho de construção (ou reforma) do seu:

O mundo comercial de hoje é muito corrido, por isso, seu trabalho deve ser apresentado com clareza para segurar o interesse. A melhor maneira de se constituir um portifólio físico (falaremos do lógico mais adiante) é usar uma dessas pastas bonitas para portifólio que você encontrará sem dificuldade em grandes lojas de arte. Escolha um que possua espiral com folhas transparentes de proteção. Isso permite que seu trabalho seja examinado sem que seja muito danificado. Você pode montá-las em folas de papel cartão colorido, mas se tiver dúvidas, use o preto.

Mantenha sempre seu portifólio atualizado com os trabalhos mais recentes e não com os trabalhos dos últimos dez anos. Parece óbvio, mas tem gente que comete essas barbaridades.

Bom, se você é um novato completo, já posso ler a sua mente... Você está se perguntando como vai obter trabalhos para encher um portifólio se nem sequer entrou no mercado, pois precisaria de um para isso. Calma, se você tem pouco ou nenhum trabalho criado profissionalmente, reúna o que tiver de melhor (eu disse melhor. Se está em dúvida, não use!) a trabalhos e idéias criadas por você mesmo. Isso demonstrará sua criatividade e entusiasmo.

O que é realmente importante não é saber se você é uma celebridade do mundo do design, da ilustração, seus trabalhos premiados ou seja o que for, mas sim mostrar diferentes possibilidades de NEGÓCIO para seu provável futuro cliente. Por isso é fundamental ser seletivo na hora de apresentar. Daí a sugestão de preparar um portifólio dirigido ao seu cliente.

Suponha que você visitará uma agência. Comece o trabalho de pesquisa, faça como os estrategistas militares. Estude a batalha antes de atirar. Se a agência tem um perfil, busque nos seus trabalhos algo que julgue importante para eles. Não adianta apresentar um trabalho cheio de grafismos, riscos e radiografias de crânios quando seu cliente é uma revista voltada para idosos e aposentados de oitenta anos.

Do mesmo modo, busque inovar. Não adianta chegar com algo que é uma imitação barata de algum trabalho que seu cliente já tenha. Isso é perda de tempo. Na dúvida o cara sempre fica com o que já tem.

Para conseguir boas imagens sem arriscar seus originais, você hoje já pode contar com bons bureaus de impressão que geram réplicas ou impressões de seus trabalhos digitais com qualidade fotográfica e em tamanhos que podem variar de centímetros a metros.

Animadores também tem no portifólio uma ferramenta de demonstração de seu trabalho. Retire alguns quadros de qualidade de suas animações e prenda-os em uma seqüência de imagens concatenadas. Em geral, clientes gostam muito de ver isso. Eles imaginam a animação na própria mente. A coisa fica ainda melhor se você vai munido de um digicard ou cd com suas animações.

A montagem do portifólio deve obedecer uma certa seqüência lógica. Não necessariamente cronológica. Por exemplo, você pode optar por reunir trabalhos em determinada técnica ou agrupar por assunto, paleta de cor, ou clientes.

É sempre bom reunir todas as artes antes de montar o portifólio e numerá-las sem seqüência de acordo com sua qualidade visual.

Assim, você terá a melhor e a pior, certo? Pois então você pega a melhor, ou a numero um e coloca como primeira página do portifólio. Esse é o “soco” inicial que você dá nos olhos do cliente. Logo, imagens de impacto em geral funcionam bem.

Agora vem a seqüência natural em ordem decrescente das imagens escolhidas, seguindo a partir da número dez. Por que? Porque você vai pegar a imagem número dois que é a segunda melhor e vai usá-la na última folha.

É um macete antigo, mas funcional. Você terá a seguinte seqüência:

1, 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3 ,2 . Com isso o seu cliente tem aquele impacto, começa a ver os trabalhos piores logo após o impacto, mas a cabeça dele ainda está “digerindo” a primeira arte e ele nem sente a diferença de qualidade entre a 1 e a 10 direito, pois em seqüência as coisas vão só melhorando e ele fecha o seu álbum com outro soco.

A última impressão é a que fica? Também! Juntamente com a primeira.

Bem, art-buyers, diretores de arte, e clientes em geral não verão só o seu portifólio. Seria um mundo lindo e maravilhoso se fosse esse o caso, mas o fato é que há uma corrida louca e sangrenta ocorrendo nos bastidores para chegarem centenas de pastas naquelas mãos que folhearão a sua. Como o cara vai lembrar de você depois que você for embora levando consigo sua pasta?

Deixar a pasta? Nunca faça isso. É arriscado demais. O que você deve fazer é antes da entrevista, preparar um folheto, que pode ser até um postal com seus dois melhores trabalhos, seus contatos e seu nome bem legível. Deixe com o cliente após mostrar o portifólio. Deixar antes pode dar a impressão de que você está desesperado.

Ok, você está. Mas ele não precisa saber. Então prepare tudo seguindo um certo padrão gráfico. Isso vai dar unidade ao seu trabalho, deixando-o mais pregnante. Use as mesmas cores, as mesmas fontes, e o mesmo estilo em todo seu material. Veja a si mesmo como uma empresa, que tem um padrão gráfico que deve ser seguido. Isso obviamente deve se refletir também no seu website, no seu cartão de visita, envelopes, papéis de fax e nos seus folhetos de divulgação.

Você deve lutar para não ser mais um na multidão. Assim, mostre segurança ao deixar o cliente lhe fazer perguntas. Tente conter sua afobação interna de contar como foi feito cada trabalho. É chatíssimo olhar um portifólio com uma matraca que não pára de contar como fez isso ou como resolveu aquilo.

Bem, não custa falar que se a imagem de seu trabalho é tudo, a sua imagem também deve ser. Vista-se adequadamente. Não é uma idéia legal ir de camisa florida e calça de “Bali” ( lembra?) numa reunião de negócios, sobretudo se você é um designer e vai lá vender imagem. O cara pensa logo: “Pô, o sujeito nem sabe cuidar da própria imagem e vai querer grana pra cuidar da minha?”

Assim, bom senso é fundamental. Infelizmente, apesar de saber que é errado, as pessoas fazem julgamento de valor a partir das roupas do candidato. Vestir-se corretamente reflete sua postura de atenção e respeito para com o cliente e mesmo que ele não perceba isso conscientemente, essa mensagem fica guardada no inconsciente dele.

Não estou dizendo para você se enfiar no terno do seu pai e ir como se fosse um noivo para o altar. Não é isso, apenas um traje social que conduza a idéia de responsabilidade e seriedade já resolve. Porque não adianta você chegar feito uma árvore de natal, se sentindo mal, já que o cliente sente isso. E aí você pode acabar estragando tudo.

Bem, se você é um digital designer, ou mesmo quer que seu cliente fique com algo mais que apenas um folheto, dê a ele um folheto portifólio.

Com o barateamento da tecnologia, os gravadores domésticos de cd ficaram mais acessíveis e se você não tem um ainda, certamente conhece alguém que tenha.

É uma idéia legal gravar um cd ou digicard com um portifólio digital para deixar com seu cliente. Se você não tem tempo de fazer coisas mirabolantes, para o CD, você pode eventualmente usar seu próprio site no cartão como apresentação multimídia.

Há nos dias de hoje profissionais que apenas usam o portifólio digital para impressionar os clientes e evitar desfilar por aí com pastas de portifólio físicas penduradas no ombro.

Uma dica para quem vai usar o portifólio digital é sempre usar marca d'água nas imagens. Tenha cautela, afinal é seu trabalho que você está deixando nas mãos do cliente.

Se seu portifólio incluir animações, vinhetas e filmes, é bom se certificar de que o cliente vai conseguir ver. Anexe o codec no cd. Assim você evita o pesadelo de na hora “H” descobrir que o cara não tem aquela versão do DivX e por isso ele não vê o seu trabalho.

Uma vez me dei mal quando fiz um portifólio virtual bem chamativo, cheio de imagens, animações e tudo mais. Viajei para São Paulo e confiante entreguei o cd para o cliente.

Vocês tinham que ver a minha cara de “sou burro” quando vi que o cliente não tinha sequer um único PC em toda a empresa para rodar o meu cd, que ingenuamente era só para PCs. Até hoje o cara não viu, com certeza. E eu deixei de marcar aquele gol. Pior, marquei um gol contra.

Assim, se você não é versado na arte da multimídia, evite riscos desnecessários. Procure um profissional qualificado para gerar a multimídia para você. A qualidade ficará melhor, a garantia de qualidade lhe trará tranqüilidade e segurança para a reunião.

Bom, uma vez que você reuniu tudo isso, construiu seu portifólio (não tenha pressa, um amigo meu ainda constrói o dele há mais de dez anos) começará seu trabalho de relações públicas.

Certamente que a parte do trabalho de um designer mais simples é o da execução de um trabalho tão logo lhe seja confiada a missão. Um cliente que paga a você certamente esperará em contrapartida que você retribua com bons serviços. Isso significa estar disponível para reuniões, falar de suas idéias, ouvir as idéias do cliente, mantê-lo satisfeito e conquistar a confiança dele.

Mas como conquistar clientes? Como encontrá-los?

Evidentemente a melhor maneira de se chegar a um cliente é através de recomendação de algum outro que gostou de seus serviços. Mas se você é novato, a recomendação ocorrerá num momento posterior da sua carreira. Bem, aí depende do seu ramo, mas a melhor maneira que eu conheço é contactá-los por telefone e tentar agendar uma entrevista. A lista telefônica é sua amiga. Lembre-se disso.

Agora, se você agendou, esteja lá no horário. Queimar o filme com um cliente pode ser “cancerígeno” para sua profissão. Não se esqueça de que a boa e a má fama se espalham rápido. Só que a má se espalha bem mais rápido. Por isso, cuidado!

Bem, seja esperto, pode aparecer trabalho de onde menos se espera, por isso trate todos com atenção e esteja sempre ligado, antecipando as necessidades de sue futuro cliente.

Eu tenho um conhecido que adora festas e eventos sociais como exposições, palestras, reuniões, inaugurações e até aniversários. Não, ele não vende seguros de vida, é designer.

Conhecer pessoas é importantíssimo, na área de um designer. A vida não é só computador e prancheta. Seu tempo precisa ser dividido em produção e contatos. É um equilíbrio delicado, porém possível de ser alcançado.

Eu poderia continuar a falar sobre essas coisas, me estender aos clientes e seus tipos, casos e histórias, mas não havia mais tempo, o ônibus havia transcorrido a ponte e eu estava chegando no meu ponto. Levantei-me e antes de descer do coletivo ainda olhei para trás e pude ver, sentado no último banco, aquele atrás do trocador, o sujeito da pasta enorme. Parcialmente encoberto por ela. A cabeça caída para trás. A boca aberta e as olheiras de cansaço. A roupa amarrotada em sua descombinação suburbana.

O ônibus partiu. E eu nunca mais vi o sujeito. Nem a pasta.

Ainda bem.