Vou falar de religiãoPhilipe Kling David Já pensou se 3d fosse uma religião? A pergunta é meio doida, eu sei, mas vamos imaginar o que aconteceria se o 3d, aliás, não só o 3d, mas o digital design em geral virasse da noite para o dia, uma religião. Imediatamente precisaríamos criar profetas para nossa religião. Afinal, uma religião sem os profetas, mártires e guias espirituais não funciona bem, (como mostra a História da humanidade). Como encontrá-los? Talvez pelo método da predestinação... A exemplo do rei Artur, que de simples pagem virou rei, arrancando a espada excalibur de uma pedra, que ninguém nunca havia conseguido arrancar. Dessa forma teríamos que esperar uns mil anos talvez, até nascer o messias do 3d... Bem, pode não ser tão legal esperar tanto. Talvez pelo método do merecimento pelo trabalho? Acho que pelo merecimento seria melhor. Mais honesto. Mais moderno. Nem precisaríamos de um messias. Isso é muito presidencialista. Podíamos ser palamentaristas, a ter uma espécie de conselho de mestres para nos guiar. Teríamos uma tribuna de julgamento e todos os usuários candidatos a entrar para este incrível conclave religioso deveriam passar por diferentes graus de seleção até conquistar seu lugar ao sol ao lado das grandes estrelas. Modelagem, iluminação, texturização, render, pós-produção, venda, negociação, cobrança... A oração da religião do design seria mais uma prática, um ato de fé, talvez penitência em alguns casos... Sentar-se no computador e trabalhar, trabalhar, trabalhar. E então, depois para descansar, estudar numa das centenas de bíblias que nossa religião teria - os livros, manuais e “bíblias” de nossos softwares preferidos. Como toda religião, teríamos santos. Entidades representativas do que ideologicamente deveríamos ser (e tal qual nas religiões reais, não somos). Pessoas que foram como nós um dia, e depois de ralar muito, teriam ascendido ao paraíso da computação gráfica, levando sua mensagem de arte inovação e criatividade a todos os cantos. Assim, não seria incomum pessoas invocarem seus santos preferidos na hora que o programa dá aquela engasgada, some tudo na viewport ou clicamos errado e estragamos aquela animação que estava indo tão bem: “Ai meu são Flavio Mac!”, “valei-me meu são Leo- Santos”! Ah, sim... Uma religião precisa de leis. Senão vira zona. Sobretudo se queremos que ela perdure por uns bons dois mil anos ou mais. Então, temos que pensar em alguns mandamentos: Amarás seu trabalho digital sobre todas as coisas Não copiarás o trabalho alheio Não usarás nem venderás programas piratas. (Ok, ok... Eu sei. A maior galera aí usa. Mas nos 10 mandamentos original está escrito “não cobiçarás as coisas alheias” e o maior galerão faz isso também.) Não perguntarás qual é o melhor software. Na guardarás domingos ou dias de festas quando o prazo está apertado. Não usarás placas “on board” no seu sacrossanto computador. Não trabalharás sem contrato. Não usarás plugins em vão. Não recusarás ajuda a um novato que não sabe nem o que é “render”. Não esculhambarás o mercado com preços obscenamente baixos. Toda nova religião que se preze precisa de fiéis, não necessariamente fanáticos, mas aqueles dispostos a converter as almas perdidas para nosso lado – o certo obviamente. Então em toda praça, esquina ou área de livre circulação com muito movimento, teríamos um pequeno quiosque multimídia, com um designer, de óculos coloridos, preparado para converter quem estivesse passando: - Aleluia irmão! Vem dar uma olhadinha na nova versão do Photoshop! Olha só esse simulador de física 3d! Olha só o render que este plugin faz, irmã! Aleluia! Aleuuuuia!!!! – E o povo grita em resposta: - Aleluia! Cada um interessado já deixa ali sua contribuição para nossa obra (de levar um computador ultra-possante para cada alma necessitada) e já sai com um cd trial do programa que preferir embaixo do braço. Em pouco tempo, compraríamos uma emissora de tv para passar nossas animações e animações dos fiéis. O horário nobre obviamente, seria dedicado às pregações, ou melhor, tutoriais dos nossos mestres e santos. Assim ganharíamos mais fiéis, e continuaríamos a crescer em direção aos céus. Aleluia! |