Revide urbanoPhilipe Kling David Seu Argemiro estava num avião. Era a primeira vez que conheceria os Estados Unidos. Na poltrona confortável da primeira classe podia sentir o friozinho do ar condicionado em seu rosto. Uma voz suave lhe chamou a atenção. Era uma loura linda. Quase um anjo que lhe oferecia champanhe. Da melhor qualidade. Não era aquelas porcarias que ele estava acostumado em noites de Ano novo... Aquilo não era cidra. No telão começou a passar um filme e o avião já havia decolado. Da janela, Argemiro via as luzes da cidade, do Brasil, ficando para trás. Começaria vida nova e seria rico na América... Uma coisa lhe espetou o traseiro. Argemiro acordou. Ainda estava no engarrafamento. Linha 147 da Viação Cascadura. Ele estava num ônibus completamente lotado dormindo em pé apertado por todos os lados depois de um dia mortuário de trabalho. O espetão fora causado por um sujeito que tentava descer depois do ponto. A lotação impediu que ele alcançasse a saída a tempo, e de nada adiantara seus gritos para o motorista, ensurdecido pelo desgraçado barulho de um motor quente e grunhento. Argemiro sentia sua coluna queimar. Dois pontos depois, a maioria das pessoas desceu e enfim ele pôde sentar-se num banco. Sentou ao lado de um velho sujo que babava dormindo com a cara batendo no vidro. Entrou um vendedor de mariola. Aquilo era irritante demais. O cara não parava de falar. Argemiro tentou em vão dormir e prosseguir seu sonho de viajar num avião, mas seu ponto já se aproximava. Ele desceu. Central do Brasil. Centenas de pessoas iam e vinham. Cada uma com sua história. Seus problemas e desgraças. No meio da praça, uns seis crentes pregavam o apocalipse em gritos de “Aleluia”, mas sem saber que ali também eles eram invisíveis. Argemiro preparava-se para atravessar a rua quando viu do outro lado, pivetes assaltando um senhor idoso. Jogaram o velhinho no chão e apenas uma senhora tentou ajuda-lo a se levantar. As pessoas em volta estavam no transe absorvente do final do dia, fechadas demais em si para notar algo comum como um assalto na Central. O sinal abriu e Argemiro atravessou com seu passo cansado de quem já trabalhara duro por quarenta anos. Ele já havia feito quase tudo na vida. Caseiro, verdureiro, pintor, servente, camelô porteiro e enfim, a profissão que seguira por dez anos: auxiliar de necrotério. Naquele dia, Argemiro fora despedido. Contrataram um rapaz fracote que sabia operar uma nova máquina de lavar defuntos, importada. Argemiro seguia para a plataforma de sempre. Ia pra casa. Pegar mais um trem e depois uma condução... Encontrar a mulher e os cinco filhos para contar que agora estava na rua. Voltaria a ser camelô, na melhor das hipóteses. Lembrou de sua filha. Leidslane. Ele a colocara na rua quando descobriu que ela namorava um traficante do Complexo da Maré e engravidara. Nunca mais a viu, nem o neto ou neta. Argemiro se surpreendeu lembrando dela. Anos havia em que o nome Leidslane havia sumido de sua memória. Argemiro andava pela plataforma ferroviária, quando uma dor aguda lhe atingiu as costas, e com tamanha força que uma bolota de catarro eclodiu do pulmão na sua boca e o rots soltou-se de seu lugar. O impacto o jogou para frente. Olhos arregalados e então, só depois, ele ouviu o barulho do impacto. Era um som oco, como o de um tambor. As pessoas em volta olharam para ele. Argemiro se virou e não viu o que o atingira. Olhou para trás buscando um culpado e viu, no trem abarrotado de gente que partia, meia dúzia de filhos da puta rindo com a mão para fora da composição. Ele fora uma vítima do “tapão”. A brincadeira descontraída da segunda-feira. Foi quando viu as pessoas rindo dele ao seu redor. Dele, um homem de 54 anos, cansado, preto num país de merda, desempregado, sem esperanças... Argemiro segurou a capanga da década de 60 que o acompanhava firmemente. Caminhou apressado ouvindo a sonora voz que jorrava dos alto-falantes informando as saídas e plataformas: Japerí, Nova Iguaçu, Queimados, Campo Grande, etc... Entrou no trem apertado. A porta não fechava. Aliás, as portas não fechavam e as janelas também. E nem podiam, já que era tanta gente se aglomerando para ir embora dali. Argemiro se segurava no canto da porta. O trem partiu. Ele olhava a paisagem e tentava não pensar em nada. A não ser na próxima estação que se aproximava. Argemiro lentamente abriu a capanga e retirou a navalha. A estação estava chegando... Argemiro escolheu um rapaz que andava de costas, devagar. Usava camisa branca, ideal. Devia ser uniforme ou coisa assim. E então, seu Argemiro abriu o instrumento e esticou o braço para fora com a navalha. O rapaz vinha chegando, chegando, chegando. A navalha entrou rápido no ombro do rapaz. Nem deixou marca. Argemiro rindo olhou para trás e viu o garoto procurando quem o havia atingido. Corte de navalha é assim. Você não sente e nem vê. Só vê depois, quando o sangue espalha. E então ele viu a multidão correndo até o rapaz e o sangue manchando a roupa. Descobriu que o corte não havia sido no ombro, mas no pescoço quando viu, já de longe, o rapaz cair numa erupção sanguínea. Argemiro guardou a navalha com cuidado. Não havia nem marca de sangue de tão afiada. Olhando para dentro viu que ninguém havia visto, ou se vira fingira não ver. Estava aliviado. Dera o troco, mesmo que não na mesma pessoa que o atingiu, mas se vingara e isso lhe bastava. O trem seguia sinuoso pelos subúrbios. A cidade, cansada, distante, sumia. |