Desafios para a perícia ufológica do século XXI

Philipe Kling Dav id

Muita gente quando era criança imaginava um futuro diferente do que vemos hoje. Não há os carros voadores. Não há as esteiras rolantes na rua, não viajamos na velocidade da luz, não dormimos em tubos criogênicos e os robôs ainda não são os nossos empregados.

A fome mundial não acabou, as guerras ainda são uma realidade torturante a concentração de riquezas e diferenças de classes aumentou de forma ameaçadora. As doenças continuam a ceifar vidas como nunca e mesmo assim, frente a uma realidade tão crua, realmente chegamos ao futuro.

Sim. Chegamos. Mas muito ufólogos parecem não saber disso. Ainda continuam a ver o mundo com os olhos de quem viveu e permanece nos anos 70.

Vemos muitos discursos na ufologia nacional que quando comparados à artigos de revistas e periódicos antigos, mostram que estes ainda perduram.

Algumas coisas permaneceram como eram e outras pioraram para a ufologia mundial. As fraudes por exemplo.

Não me refiro aqui aos enganos, problemas de câmera e filme, balões, satélites, fenômenos atmosféricos e os outros tipos de situações que levam as pessoas comuns a se enganar.

Falo aqui de pessoas que por vontade própria, armam situações inteligentes para enganar o outro.

Desde que os primeiros casos de ufos foram relatados nos jornais, a sombra do farsante ameaça a pesquisa ufológica séria com embustes, truques e efeitos, bem como todo tipo de sortilégio para mostrar uma coisa que talvez, no fundo, o próprio farsante esperava ser verdade. A existência de outras civilizações.

São tantos os motivos que levam alguém a fazer uma fraude ufológica e de tão variada natureza que só este assunto seria base para um livro inteiro. Mas o fato é que o indivíduo sempre tem uma motivação para criar a fraude. Seja ele líder de uma seita que explora a crença alheia e busca nas fotos falsas um respaldo para sua máquina exploratória, seja uma fraude só para mostrar aos amigos. Ou apenas para enganar pessoas que se dizem peritos em fotografias ufológicas, e quem sabe assim ter o prazer de se sentir mais inteligente (por ter eventualmente conseguido).

A grande maioria dos casos de fraude acabam mesmo identificadas pela rede de analistas de imagem que assessoram os principais grupos de pesquisa do país.

Mas para cada fraude descoberta, existem outras centenas delas circulando e enganando as pessoas.

Um dos problemas que a fraude fotográfica na ufologia gera é que em cima de fotos falsas, muitos livros foram escritos, onde muitas delas são tidas como verdadeiras fotografias de naves de outro planeta em ação. Assim, o ruído na comunicação se generaliza e até separar o joio do trigo, muita gente repete a mentira que leu sem saber.

Há fraudes e fraudes. É extremamente comum vermos na ufologia fotografias de baixa qualidade. Quase todas são borradas, muitas em preto e branco, e a maioria com baixa nitidez. Nas fotografias que são verdadeiras, estes fenômenos se explicam pelo fato de que um avistamento é algo imprevisível. Assim, a calma necessária para enquadrar não se faz presente (por razões óbvias) e o tipo, quantidade e qualidade do filme está certa, além da configuração do equipamento nem sempre estar adequada.

Evidentemente, o falsificador sabe que é mais fácil ocultar seus embustes e truques numa fotografia borrada, já que ela vai ter relação com outras fotos, algumas até reais que se deram em condições adversas.

Há também os que, por outro lado, buscam a alta definição das fotos como uma escada para sua imagem estourar na mídia.

Foi o que se deu com os filmes controversos como a autópsia dos aliens de Ray Santilli, a filmagem do ufo giratório no México e também as fotografias de Méier, etc.

Os exploradores da boa fé alheia, não hesitam em usar de todos os artifícios disponíveis para enganar. Assim jogam desde tampas de panela a calotas de automóvel, passando por todo tipo de brinquedo, bacia, vasilhame e até chocadeiras para o ar em busca de uma imagem que pareça um disco voador legítimo.

Com o advento da revolução tecnológica, o panorama mundial mudou muito em pouco menos de quinze anos. Os reflexos na ufologia são claros, mas poucos já os percebem.

Os computadores ficaram mais baratos e acessíveis. Os programas passaram a ser mais fáceis e baratos de utilizar. Principalmente os softwares de natureza gráfica evoluíram bastante, sobretudo nos últimos dez anos.

Este fenômeno da tecnologia popular trouxe vantagens e desvantagens para os pesquisadores do fenômeno ufo.

As vantagens foram a velocidade de comunicação, acesso e aquisição à troca de informações e também os recursos gráficos que permitem ao especialista de hoje analisar imagens fraudulentas usando uma série de filtros matemáticos especiais na busca da verdade acerca de uma imagem.

Mas as desvantagens que a tecnologia trouxe em contrapartida, não são poucas.

Da mesma maneira que a internet possibilitou o acesso à informação, ela possibilitou que muita desinformação fosse veiculada na rede. O problema das fotografias falsas que eram erroneamente classificadas como reais, agora entopem sites de ufologia tornando praticamente impossível saber se uma evidência fotográfica é real ou já foi desmascarada.

Outro ponto onde a tecnologia causou problemas foi justamente no avanço dos programas gráficos. Da mesma forma que eles auxiliaram os pesquisadores a descobrir imagens falsas, os programas permitiram que hoje se crie virtualmente tudo. Desde pessoas que parecem muito reais até ufos que parecem muito reais. (vide fotos)

O cinema americano foi um dos maiores incentivadores da chamada tecnologia de fantasia. Hoje, programas avançados são capazes de criar mundos, alienígenas de todos os tipos e levar o espectador para uma viagem sem fim pelos confins da galáxia.

O poder de processamento de dados das máquinas que rodam estes programas duplica a cada ano.

Quem conheceu a supremacia do videogame Atari nos anos 80 pode se espantar ao ver hoje, ante seus olhos criaturas falando, babando e usando inteligência artificial para matar o jogador nos videogames modernos.

São máquinas poderosas, capazes de movimentar nada menos que cento e vinte e cinco mihões de polígonos por segundo, numa tela a razão de mil frames por segundo, ouvindo o rugir da criatura em 256 canais de áudio individuais.

E isso numa máquina comercial dedicada ao uso doméstico. Imagine do que são capazes as várias estações de trabalho que custam em torno de U$ 550.000 cada e que fazem os efeitos especiais de cinema.

A coisa não é brincadeira. Os investimentos na computação gráfica são milionários. Este ano chegou aos cinemas um longa metragem apenas com personagens virtuais. E muitos bonecos que antes dominavam o mundo dos efeitos especiais já foram substituídos por seres mais realistas no cinema, como ocorreu com Jurassic Park.

Jurassic Park foi um marco na história da computação gráfica. Foi a primeira vez em que o real foi substituído pelo virtual/irreal apenas por este parecer mais realista.

É uma questão de tempo até esta tecnologia toda desembarcar no campo da ufologia.

Voltando ao universo das fotografias, a redução dos custos de produção das câmeras digitais, onde não é mais necessária a revelação dos filmes, gerando um arquivo final virtual, está criando um exército de futuras testemunhas de ufos, que empunharão meras imagens digitais.

Mesmo sabendo que as fotografias são apenas uma pequena parte das evidências usadas na determinação de uma ocorrência do fenômeno ufo, algumas perguntas se fazem necessárias.

Como se dará a análise desse material? Como será efetuada uma varredura na fotografia em busca dos indícios de fraude, uma vez que as fotos digitais ainda tem uma definição muito baixa? As fotografias digitais serão excluídas de uma análise técnica? E até onde se poderá ter certeza de que uma imagem de fato é uma fotografia e não uma imagem tridimensional renderizada, usando tecnologia de última geração? Até onde poderemos julgar com certeza se as imagens que vemos fazem jus ao que uma testemunha nos diz ou é apenas mais um esperto tentando se aproveitar de um conhecimento tecnológico avançado para passar os outros para trás? O que será desta tecnologia disponível nas mãos erradas de pessoas sem moral e que vivem de vender mentiras da ufolatria? E principalmente, em quem o público leigo acreditará?

O mundo está aos poucos se tornando virtual. Nunca antes vivemos uma situação onde é difícil dizer se o que vemos de fato existe ou é produto da mais avançada matemática computacional.

Também nunca antes houve tanta gente desesperada, querendo e pronta para acreditar na primeira coisa que lhes aparece num mundo extremista que se divide entre os que querem acreditar a qualquer custo e os que não querem acreditar de maneira alguma que o fenômeno possa de fato existir.

Vejo que a era das fraudes famosas e controversas até hoje como as fotos de naves pleiadianas de Eduard Meier, o ufo venusiano de Adamski, entre outras pode estar chegando ao seu fim.

Mas isso não significa que a fraude acabará um dia. Mas que ela se sofisticará a um ponto que será praticamente impossível saber se de fato o que nós vemos é real.

As máquinas que permitem fazer imagens tão realistas serão as mesmas que permitirão filmagens incríveis e bastarão meia dúzia de fotos e filmagens serem desmascaradas para que os céticos mundiais passem a atribuir autoria do computador a todas as fotos que aparecerão. E muitas delas poderão ser mesmo reais.

Os métodos usados ainda hoje para perícia de imagens, seja em filmes ou fotografias entre outros, é a análise da luz refletida pelo objeto. Através dela é possível obter uma idéia da provável dimensão do objeto e sua proximidade da câmera. Este método é muito eficaz para desmascarar imagens simples como tampas de panela revestidas de papel alumínio jogadas e fotografadas. Mas este tipo de análise resistiria a um sistema complexo capaz de simular a realidade posicionando um ufo com tamanho correto numa distância correta, juntamente com um coeficiente de névoa distancial coerente além do posicionamento de um sol de acordo com cálculos astronômicos automáticos baseados no local da terra, dia, hora, estação e ano?

Pois isso é perfeitamente possível de se fazer. Com um dos softwares 3d mais comuns do mercado.

Já houve pesquisadores dizendo ser possível descobrir a autenticidade de uma imagem tridimensional por suas bordas definidas excessivamente.

E de fato isso acontece. Aliás, acontecia. Os mais recentes programas de computação gráfica permitem não só determinar uma porcentagem de desfocamento nas bordas como também uma série de padrões especificamente técnicos, como aberrações cromáticas, alterações de intensidade luminosa por exposição alterada, granulação, poeira, efeitos atmosféricos de alta complexidade e que usam matemática caótica de base natural em suas equações, além de outras coisas que podem se tornar as pedras no sapato do pesquisador do futuro, como a possibilidade que a tecnologia de hoje oferece para simular com perfeição absoluta os movimentos de câmera.

No 3d de hoje, através da fixação de pontos referenciais na filmagem de fundo, as coordenadas do movimento da câmera são repetidos pela máquina, o que basicamente significa que a o menor movimento realizado por uma câmera produz efeito no objeto virtual inserido digitalmente sobre o filme, como ocorreria com um objeto real que estivesse sendo filmado.

Hoje é possível fazer um objeto CG (de computação gráfica) interagir perfeitamente com objetos bidimensionais, sem que se perceba a diferença. Inclusive, o objeto pode ter efeitos físicos complexos da ótica aparecendo indiretamente na cena, como a reflexão, luz radiosa, luz caústica e muito mais.

Está na hora dos ufólogos abrirem os olhos para o mundo do futuro tecnológico que se descortina, e compreenderem suas implicações para o trabalho de pesquisa e não só se ofuscarem com o estado atual do desenvolvimento que chegamos, mas antever o potencial da tecnologia de hoje para não serem pegos de surpresa amanhã.