Zezinho da esquina

Philipe Kling David

O nome dele não interessa. Ele está perto de você a todo tempo. Parece prever o que você pretende. Ele parece ouvir suas ligações telefônicas. Ele sabe quais são seus melhores clientes.

Ele é o Zezinho da esquina, um predador voraz do profissionalismo, este ser do mal pode ser encontrado sob diversas formas nas mais variadas profissões, mas é no mundo das artes comerciais como a ilustração e no design que a forma mais nauseabunda deles vem se multiplicando. Claro, tal qual o capeta, ele tem muitos nomes, mas no mundo dos ilustradores ele é popularmente conhecido como Zezinho da esquina - o exú do design.

Para quem não o conhece, o Zezinho da esquina é um cara aparentemente normal, que na ansiedade de se tornar um “profissional” entra “de sola”, jogando preços lá em baixo, fica copiando trabalhos alheios, e entrando em disputas de modo antiprofissional.

De maneira ingóbil, o Zezinho da esquina atira no próprio pé numa ânsia desesperada para entrar no mercado. Sua ignorância não permite ver que ao escrachar o segmento com preços baixíssimos, condições indecorosas e atitudes antiprofissionais, ele condena a classe ao qual gostaria de pertencer no futuro, à morte.

Bem, em geral, como o Zezinho tem o problema de auto-estima e antiprofissionalismo, ele acaba passando a maior parte do tempo pulando de cliente em cliente para compensar seus preços arrasadores e o conseqüente baixo retorno financeiro. Eles contribuem significativamente com a idéia deturpada que ilustradores são uns mortos de fome que devem ser explorados. Então, um cliente inocente resolve optar por este descohecido em detrimento a uma empresa, e contrata um garoto desses para um trabalho de webdesign baseado no seu preço e fama de barateiro.

Aí ele vai lá e num passe de cliques, toma a propriedade do site de alguém, daquelas artes, daquilo tudo. E manda para o cliente, que sem suspeitar, credita-lhe os louros do sucesso, achando-se genial por ter poupado uma enorme quantia em dinheiro ao usar um molecote para fazer o trabalho de um profissional gabaritado, que gastou com cursos, pilhas de livros, usa programas originais, tem uma empresa e precisa seguir a lei.

Então, quando o oficial de justiça bate na porta com o anúncio do processo por plágio, o cliente se estrepa, passa vergonha, coloca a marca e o nome da empresa a perder. Mas o temível Zezinho já está longe. Atrás de outro cliente. Agora olhe-se no espelho e pergunte-se se você não é um Zezinho sem saber.